Maioridade Penal: "Julianos" e "Douglas, resultados de uma sociedade materialista e desigual

TEXTO E DIAGRAMAÇÃO DE GABRIEL LIMA

PROLOGO: Juliano e Douglas, dois "di menor"

"Juliano tinha apenas 8 anos de idade quando o paí morreu vitima de bala perdida, a mãe que já não possuía uma mente tão saudável, por ter sido abusada durante a vida inteira, começou a usar drogas, beber e negligenciar Juliano. Sem a ajuda dos país e sem a presença do estado, Juliano saiu da escola aos 13 anos para trabalhar em uma fábrica de blocos, próxima à sua casa. Lá Juliano recebia uma mixaria, e não conseguia nem sustentar a si mesmo, ou sua mãe viciada em drogas."

"Ao completar 15 anos, Juliano já era pai e agora acrescentava mais duas pessoas a sua família - seu filho pequeno e sua mulher. Sem condições de sustentar a família e arranjar um emprego bom (já que tinha estudo só até a 4° série), Juliano foi para o crime. Roubava para comer e não para gastar, e nunca matou ninguém. Foi preso com 16 anos e meio pela primeira vez, e ficou na fundação casa até os 18 anos. Ao sair, nada havia acrescentado a sua vida, ficou em um local tomado pelo medo e a violência, que diziam "iria transforma-lo em um cidadão". Ao sair, seu filho havia morrido de pneumonia, e sua mulher estava com outro, sua mãe estava se prostituindo para poder comer e se drogar. O que séria então de Juliano? Simples, morreu aos 24 anos em um assalto a uma lanchonete que deu errado. Morreu sem nunca ter matado, mas foi morto por todos à sua volta. Morto por seus país, que lhe negaram o amor, morto por sua mulher que lhe tirou o filho em sua incompetência, morto pela sociedade que o segregava por ser pobre e negro, morto pela cadeia onde ficou, que apenas o ensinou à ser pior. "

"Douglas tinha 14 anos quando matou pela primeira vez. Matou por um par de sapatos, que o "mané" não

queria tirar. Atirou à queima roupa, derramando o sangue do rapaz pela calçada e acabando com a vida de uma família. Ao contrario de Luciano, Douglas vivia em um bairro de classe média. Comia bem, dormia melhor ainda, e se divertia a custas dos pais. Mas só isso não bastava para Douglas, ele quera "ostentar", roubar para mostrar aos seus "amigos" as suas posses subtraídas, e se desse sorte conseguir uma "novinha" para usar e abusar, enquanto a mesma fazia o mesmo com o mesmo. Douglas foi preso aos 15 anos, após matar pela segunda vez,  foi mandando para a fundação casa, onde conheceu Juliano. Saiu aos 18 anos, e logo voltou a assaltar, ao contrário de Juliano, Douglas tinha estudado, e havia terminado a escola na própria fundação Casa. Recebia a visita da mãe e os bolos da avó, todos os dias de visita. Para Douglas não faltava amor, o que faltava era limite. Douglas ainda está por ai, roubando provavelmente, ou gastando o dinheiro de um pobre pai de família."

Desconstruindo a redução da maioridade penal

A primeira pergunta que devemos fazer é - à quem vai beneficiar a redução da maioridade penal? Claramente não é a sociedade, já que a simples redução da maioridade não causara redução nos crimes cometidos por menores. Menores esses que são muitas vezes coagidos por adultos, a trabalharem para o trafico ou realizarem assaltos e por vezes até matarem. Os "Julianos" do mundo, que roubam para sobreviver, por não terem tido acesso a educação ou informação, são resultados da falta de comprometimento dos sucessivos governos com a educação Os "Julianos" da vida, me disse um passarinho! Costumam ser negros, moradores de comunidades carentes e membros de famílias desajustadas. Como julgar alguém que viveu em meio ao ódio, em meio a precariedade máxima. Ao invés de jogarmos os "Julianos" na cadeia, devíamos primeiramente saber o porquê de sua atitude criminosa.

O crime contra a propriedade, um tema bastante burgues em essência, e a justificativa para encarcerar metade da juventude brasileira, para os setores que defendem a maioridade penal. Outros falam à respeito daqueles que matam com crueldade. Mas, do que adianta prender um "monstro" se colocaram o mesmo na universidade dos monstros, chamada cadeia, que dificilmente reeduca, já que quase todos que lá passam, lá voltam. Se nosso Juliano arquetípico tivesse tido acesso a educação, saúde e lazer, o mesmo teria um dia pensado em roubar? Rousseau estava certo? O homem nasce bom e a sociedade o corrompe? Aparentemente sim, ainda mais em nossa republica ensolarada chamada Brasil.

O individuo que passa sua infância e adolescência em uma comunidade e ambiente totalmente desprovida de infraestrutura, jamais poderá fazer frente em uma sociedade competitiva e capitalista como a nossa. Como o pobre Juliano, poderia competir contra os "Batistas" do mundo, se nem ao menos sabia ler, enquanto os Batistas aos 10 anos já visitavam a "Disney" nos "States". Nossa sociedade marcadamente dividida em classes bastante distantes, evidentemente gerara os "Julianos" da vida. Sem estudo, sem perspectiva, só lhe resta o ataque.

MAS ENQUANTO AOS DOUGLAS?

Diferentemente dos "Julianos" os "Douglas" não sofrem a ausência de estudo, ou de perspectiva, mas sofrem de certa forma, a ausência de pensamento, sintoma bastante comum entre quase todos os brasileiros. O roubo para à "ostentação" é a forma bandida de um comportamento que muitos realizam. Valorizar as marcas, acima das qualidades pessoais, valorizar o material ao invés do mental. Todo consumidor de marcas por marcas, é um cúmplice do crime "ostentação. Mas, e o que fazer com esses jovens? Prender seria a solução? Reeducar?

Infelizmente a realidade é dura, e o crime ostentação é de uma característica totalmente nova, afundada nas aparências e futilidades da sociedade pós moderna, globalizada e capitalizada. Para acabar com o comportamento ostentativo, seria necessário cortar a raiz do problema, e essa raiz está bem cava em propriedade privada, protegida por cães e guardas. Ou você acha que o dono da Lacoste, da Abercrombie, se importam com o "cara" que morre para que os "Douglas" comprem suas porcarias. 

Reduzir a maioridade penal, não adianta em nada. Enquanto existir escolas sucateadas e professores mal pagos, e comunidades carentes, novos Julianos surgiriam. Enquanto a sociedade do capital, a sociedade do consumerismo existir, existira a "ostentação". Reduza a maioridade penal para 16, e logo os de 13 estarão matando para ostentar, e ostentando para ser alguém em um mundo saturado pelo materialismo.




Somos iguais perante os olhos da mídia?

Geraldo Alckmin e seu filho, morto no acidente.

Thomaz Alckmin, morto na ultima semana, devido à queda do helicoptero onde o mesmo estava, promoveu uma comoção, e a cobertura total mídia. Acontece que Thomaz, não é nada mais nada menos, que o filho do atual governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin. Thomaz não foi o único a morrer, outros passageiros também tiveram suas vidas ceifadas pelo acidente. Mas a mídia, como sempre faz, deu maior crédito a morte do filho do governador, do que dos outros presentes na aeronave.

A cobertura realizada pela mídia, claramente sensacionalista e tendencialista, utilizou em algumas instancias a morte de Thomaz para exacerbar o caráter de Geraldo Alckmin e sua familia. Constantemente eram repetidas informações quanto a religiosidade da família, e como os mesmos eram próximos. O ethos de uma população, tende a ser usado pela mídia e pelos políticos, afim de realizar manobras sociais. Sabemos que o ethos brasileiro é puramente paternalista, patriarcalista e cristão, por isso ressaltar essas "qualidades", passa aos olhos de qualquer mente desperta, como uma tentativa de nos vender um ideal.

Alan, segundos antes de morrer
Recentemente vimos a morte do menino Alan de Souza Lima, de 15 anos, por parte de policiais, que alegaram que o mesmo, estava armado e havia reagido, no entanto, em um vídeo encontrado no celular de um de seus amigos, vemos que Alan e os outros colegas, conversavam e brincavam, quando os policiais já chegaram disparando suas armas. Antes da divulgação do vídeo, a mídia apenas passou a versão dos policiais, dando pequenas indicações contrárias, como, "a família disse que os garotos não reagiram", de forma à descreditar a versão da população, e dar peso ao argumento dos PM´s do Rio de Janeiro. Mas o tiro saiu pela culatra, e o vídeo foi divulgado.

País do menino Eduardo
Ainda mais recente, vimos o caso de outro garoto, dessa vez Eduardo de Jesus Ferreira de 10 anos,
morador do Complexo do Alemão, morto em uma operação policial, recebeu uma atenção considerável da mídia, mas não tanto quando a de Thomaz. No caso do menino Eduardo, o "sensacionalismo dateneano" foi utilizado para ganhar IBOPE, em cima da morte de uma criança. As noticias sobre a morte de Thomaz, ainda enchem os jornais, comentando sobre as investigações sobre os motivos da queda.



Claramente podemos perceber que a mídia não trata de forma igualitária os casos que resultam em morte, ou mesmo em casos de roubo e assaltos. Se da uma atenção muito maior quando a vitima e branca, classe média alta e prioritariamente "cristã". Se da pouca ou quase nenhuma atenção midiática a casos de morte em comunidades carentes, e mesmo quando a atenção é dada, o sensacionalismo é notório. Em um país como o nosso, onde as classes são tão distantes uma das outras, economicamente, incrivelmente ideologicamente elas se assemelham em muito, já que a maior parte dos telespectadores de jornais sensacionalistas, que aparentemente dão mais valor a mortes de pessoas de classes mais altas, são pobres ou se encontram em classes de pouco poder aquisitivo.

O caso de Thomaz Alckmin, apenas é mais um episodio onde a mídia cobre de forma sensacionalista uma morte, para ganhos próprios e para vender uma imagem "santificada" de seus aliados, ou para aqueles que se assemelham com os donos do poder.

EM LETRAS CAPITAIS, SEGUE AQUI O NOME DOS OUTROS SERES HUMANOS, ASSIM COMO THOMAZ ALCKMIN, QUE ESTAVAM NO HELICÓPTERO. SEM JULGAMENTOS MORAIS SOBRE QUEM ERAM, E COMO ERAM ESSES HOMENS, O IMPORTANTE E PERCEBER COMO O ENFOQUE MIDIÁTICO FOI DIRECIONADO SOMENTE À THOMAZ.

CARLOS HAROLDO ISQUERDO, 53 anos, piloto.
PAULO HENRIQUE MORAES, 42 anos, mecânico.
ERICK MARTINHO, 36 anos, mecânico.
LEANDRO SOUZA, 34 anos, mecânico. 
Quando a maioria se torna "minoria": Bancada evangélica, um câncer na politica brasileira
Durante os protestos para os direitos civis nos Estados Unidos, em meados do século XX, a população negra, que lutava por seus direitos, começou a utilizar um termo que ficaria bastante conhecido, minoria. Em relação aos negros, os mesmos tinham total direito de utiliza-lo, já que eles realmente compunham uma minoria, e uma minoria segregada pela população branca. 

Aprendendo com os movimentos negros, as mulheres, os homossexuais e recentemente os ateus, tem utilizado o mesmo jargão. As mulheres apesar de em números serem maiores que os homens, não possuem tanto espaço no mercado de trabalho, os homossexuais sofrem preconceito diariamente em todas as instancias sociais, e os ateus da mesma forma. No entanto, recentemente aqui no Brasil e em outros países, uma maioria absoluta tem utilizado esse mesmo discurso de forma cínica e leviana. Os evangélicos.

A MINORIA QUE CONTROLA A TV E A POLÍTICA

No Brasil, assim como nos E.U.A, os "evangélicos" são extremamente influentes, contabilizando centenas de seguidores de suas doutrinas. Os mesmos se encontram entre os mais ricos, com patrimônios bilionários. As igrejas detêm boa parte dos horários da TV brasileira e do rádio. Mas infelizmente não para por ai, essas mesmas igrejas exercem uma forte e prejudicial influencia sobre a politica de nosso país. A banca evangélica atualmente, tem derrubado propostas significativas, e defendido ideias retrogradas, como a maioridade penal (VOTADA PELO DEPUTADO SÉRGIO ZVEITER, PSD), votada e aprovada pela Câmara dos Deputados, e o cerceamento dos direitos LGBT.

Esses "deputados" da bancada evangélica, são eleitos devido ao grande poder das igrejas que financiam suas campanhas, que necessitam de defensores de suas idéias medievais no cenário politico. Essa pratica tem levado um país já atrasado como o Brasil, para níveis ainda piores em direitos humanos.

Portanto o tal discurso dos evangélicos, principalmente seus representantes políticos, de que os mesmos seriam uma minoria, e para dizer o português claro, escroto! De uma falta de vergonha na cara tremenda! Enquanto ficarmos quietos frente a essa maioria esdruxula, nosso país nunca ira andar para frente. Ateus, movimento LGBT, uni-vos!

Maioridade Penal: "Julianos" e "Douglas, resultados de uma sociedade materialista e desigual

Somos iguais perante os olhos da mídia?

Quando a maioria se torna "minoria": Bancada evangélica, um câncer na politica brasileira