FilosoGames: "Bully", e o Sistema Educacional Americano

TEXTO DE GABRIEL LIMA

O controverso game da empresa  Rockstar, proibido em vários países, inclusive no Brasil, conquistou espaço na mídia, do que nas prateleiras das lojas, obtendo um certo sucesso com os gamers. O game em que coloca você no papel de Jimmy Hopkins, um problemático garoto adolescente, que é transferido para um internato depois que sua mãe sai para uma lua de mel de um ano, após se casar com um cara rico. Jimmy deve conquistar seu espaço nessa verdadeira selva, onde cão come cão. Alias cão como cão em latim é Canis Canen, nome dado ao game na Grã-Bretanha.

Bully foi criticado devido a sua jogabilidade "violenta" e sua "apologia ao Bulllyng". Qualquer um que joga os games dos estúdios da Rockstar, sabe que sua marca registrada e o sarcasmo e a sátira. Grand Theft Auto, a serie mais conhecida da desenvolvedora, faz ferrenhas considerações sobre o mundo pós moderno, dominado pelas grandes empresas, marcado pelo consumerismo e dominado por políticos corruptos. Red Dead Redemption, outro game da Rockstar, ambientado no velho oeste americano, satiriza um período da História americana romantizado em filmes e livros. Podemos citar aqui vários outros exemplos de outros games da empresa, mas para sermos breves, vamos direto ao game em foco.

"AH QUEIMADA! COMO EU ADORO O SOM DE GAROTOS CHORANDO PELA MANHÃ"

Nerds
A frase do subtitulo acima, é dita pelo professor de educação física de Bullworth, escola em que a maior parte do game se passa. Um internato bem ao estilo inglês, Bullworth possui uma péssima reputação, como diz Jimmy Hopkins, personagem principal no inicio do game, "a escola conhecido por formar advogados corporativos, Assassinos em série e todo tipo de mal elementos". Ao andar pelo terreno da escola, o jogador pode encontrar um grande quantidade de jovens, que se dividem em diferentes tribos.

  • Os Nerds: Desprovidos de habilidades sociais, e frequentadores da biblioteca, os nerds em Bully passam a maior parte do tempo jogando RPG de mesa e construindo armas para enfrentar os Bullys
  • Os Greasers: Os Bad Boys do game, vestidos em couro e brilhantina, os rebeldes sem causa da cidade e escola de Bullworh.
  • Os Jocks: Extremamente fortes e extremamente burros, membros do time de futebol americano da escola, e grupo dominante na hierarquia de Bullworth
  • Os Preppies: Jovens ricos e mimados, que se acham superiores à todos, agindo como ingleses e praticantes de Boxe.
  • Os Bullies: Jovens que passam o tempo todo arrumando confusão e brigando.

Essas diferentes são dominadas aos poucos pelo personagem principal, e suas atitudes e seus modos de ser são revelados ao jogador, em uma série de comentários satíricos. Bom, agora que o game está apresentado, podemos partir para a nossa análise. O game Bully é uma sátira do sistema educacional americano? Por sua exacerbação dos problemas educacionais americanos, o game foi tão condenado?

As sátiras tem o poder de mostrar situações e comportamentos, que por vezes tendemos a esconder. Grandes exemplos de sátiras modernas, são os filmes do comediante e ator Sacha Baron Cohen (Borat, O Grande Ditador), e o canal brasileiro "PORTA DOS FUNDOS". Ao fazer uma sátira, por exemplo, sobre o estado laico brasileiro, e demonstrar nessa sátira que a religião cristã ainda e dominante na politica brasileira, o canal "PORTA DOS FUNDOS", expõem uma situação que muitos ainda negam, mas é evidente quando se faz uma análise mais profundo. Os games da Rockstar sofrem com criticas de grupos conservadores, devido ao seu conteúdo debochado, e repleto de criticas ao modelo de vida americano.

"SEM EXPULSÕES ESSE MÉS, EU ESTOU FICANDO FROUXO?

Uma das primeiras coisas que um percebe, ao salvar o game Bully, é que alguns jovens foram deixados de lado, sem estudar, por não conseguirem pagar a anuidade da escola. Jovens pobres que vivem na periferia industrial da cidade de Bullworth, vitimas de um sistema de ensino desigual. Como se sabe, nos Estados Unidos a maioria das universidades são privadas, o que dificulta o acesso da população pobre nessas faculdades. Muitas faculdades como Harvard, Yale e Princeton, funcionam através de aplicações financeiras de capital doado por ex-alunos. Jovens de família rica possuem facilidade para entrar nessas universidades, que não possuem um vestibular, somente entrevistas e alguns testes. Essa desigualdade no ensino, reflete a desigualdade social no país. A escolas publicas americanas, sofrem sérios problemas, e recebem baixas notas para um país desenvolvido. Além disso, escolas em zonas periféricas, sofrem em muitas cidades com ondas de violência, gangues e drogas. Escolas privadas, possuem notas altas, e servem como mais uma ferramenta de divisão de classes, já que somente uma pequena elite se forma nessas escolas, aproximadamente 9% da população de jovens em idade escolar.

No game o jogador tem a opção de frequentar aulas de algumas matérias como - Inglês, Matemática, Biologia, Artes, Educação Física e Química. Essas aulas nada acrescentam para a personalidade do personagem principal, que apenas ganha habilidades para o game, e alguns itens. Assim como em muitos países, o ensino público americano, é voltado para a formação da classe trabalhadora, e exige apenas a absorção de algumas habilidades voltadas ao mercado de trabalho, ao invés de fomentar o senso critico e formar futuros pensadores. A escola em Bully, é demonstrada como um local de exclusão, segregação e corrupção, refletindo certas realidades da educação americana que poucos gostam de comentar. Como a facilitação que os alunos membros dos times possuem nas matérias, por parte dos professores, já que os campeonatos escolares são por vezes até televisionados nos EUA. E o fato de alguns professores, criarem divisões entre os alunos, e ignorarem os abusos cometidos entre eles.

RUSSEL! ESMAGA!

Muito foi comentado de que o game incitava o comportamento que ficou conhecido como "bulling". No entanto, os disseminadores dessas criticas, membros de grupos conservadores parecem não levar em conta os fatores sociais que levam um garoto ou garota, a cometer atos violentos, sejam eles verbais ou físicos. No game a maioria dos Bullies são jovens problemáticos, com famílias desestruturadas ou fortes traumas. É possível ouvir alguns desses jovens, falando coisas como "por que eu acho garotos bonitos", ou comentado à respeito da ausência de suas famílias, claro que tudo isso em tom satírico. O próprio protagonista, Jimmy sofre com a ausência de sua mãe, uma viuvá que não para em um casamento sequer e negligencia Jimmy por completo. O sistema competitivo das escolas também geram os comportamentos agressivos, onde os jovens tentam de todas as formas serem melhores do que os outros.

Bully como uma sátira, cospe de volta na cara da sociedade, toda sua podridão e suas contradições, por isso o game foi tão criticado, e por isso o game é tão amado por seus fãs, que aguardam ansiosamente uma continuação (inclusive eu).




Filosogames: "The Legend of Zelda", e o Eterno Retorno

Texto de Gabriel Lima

Em sua obra a "A Gaia Ciência", mais especificadamente no aforismo n°341, Friedrich Nietzsche disserta sobre infinidade do tempo, e a possibilidade de eventos se repetirem nesse tempo infinito:

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!” – Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!”.
Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
Apesar de esse trecho não demonstrar claramente esse ideia, o restante das obras de Nietzsche contribuíram para fomentar a ideia do Eterno Retorno filosófico. Mas o que o game Zelda tem a ver com isso?

A cada nova versão somos apresentados as mesmas personagens - Zelda a princesa, Link o herói, e em várias ocasiões, Ganondorf, o vilão. O games da série possuem quase sempre a mesma narrativa, onde o herói é imcubido de salvar o reino ou a terra de alguma ameça qualquer. Segundo a ideia do eterno retorno, isso aconteceria devido ao tempo infinito, que em sua "infinidade" causaria eventos semelhantes incontáveis vezes. Hoje Link derrota um mestre e ganha um pedaço de coração, daqui a centenas de bilhões anos, isso acontecera de novo, devido a insuficiência de causalidades para preencher um tempo infinito. 

As personagens presas à essa repetição, não percebem o que ocorre e continuaram pela eternidade à realizar suas ações predestinadas.
Filosogames: Super Mario e o utilitarismo

"Mario é convocado mais uma vez para salvar a princesa do terrível Bowser, para isso, ele terá que viajar por todos os territórios imagináveis e enfrentar as piores ameaças para salvar a donzela indefesa"

Essa é basicamente a premissa básica de todos os jogos da serie do encanador bigodudo. Além de ser uma continuação da mais que antiga história, do homem que derrota a besta para salvar a donzela, ou o cavaleiro que derrota o dragão para salvar a princesa (em termos medievais, os jogos de Mario nos levam a uma pergunta, que acredito que poucos já se perguntaram; o que Mario faz é moralmente correto? Dizimar centenas de criaturas aparentemente pacificas e naturais, somente para salvar uma princesa, e algo moralmente superior ao atos de Bowser?

Mario é um idealista, buscando um resultado moral e feliz para suas ações, o mesmo comete um genocídio durante as suas aventuras para salvar a princesa, que no final o que importa e o resultado de suas ações, e se esses resultados geram felicidade.

John Stuart Mill

O utilitarismo é uma filosofia ética que promove o resultado qualitativo de uma ação, se os nossos atos geram consequências que trazem felicidade, isso é bom. Se nossos atos, ao contrário, causarem a maldade e infelicidade, isso é mal. O utilitarismo é uma filosofia dualista, que necessariamente vê o mundo dividido entre "bem e mal", mas em questão de resultados filosóficos que causem ou não prazer, se assemelhando ao Hedonismo. Antes de quaisquer outros, foram Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873) que sistematizaram o princípio da utilidade e conseguiram aplicá-lo a questões concretas – sistema político, legislação, justiça, política econômica, liberdade sexual, emancipação feminina, etc.

Mas sera que isso é válido?

A morte de centenas de cogumelos e centenas de outras especies é realmente necessária para salvar uma princesa? 
Filosogames - Mass Effect e o  progresso tecnológico destrutivo (Spoilers!!!!)
Citadela, residencia do conselho galático

Durante os séculos XIX e XX, a humanidade obteve um alto e rápido crescimento tecnológico, principalmente movido pelo aço, vapor e petróleo. A literatura criava mundos futurísticos, movida pela crença de que nossa especie, continuaria eternamente evoluindo, até conquistarmos o espaço. Mas, nos últimos anos, temos visto o contrário. A destruição do meio-ambiente por resíduos tóxicos, o aumento das temperaturas e o degelo das camadas polares, tem aumentado a desconfiança em relação ao progresso da humanidade, e colocado em cheque o "destino manifesto" dos homens.

O que nos leva a seguinte questão, estamos predispostos a nos destruirmos, por causa do crescimento tecnológico? Pode um dia, aquilo que nos permitiu deixar de ser pressa e virar predador, nos destruir devido a nossa cobiça?

MASS EFFECT: VIDA X TECNOLOGIA

Geth, um raça sintética
criada pelos Quarianos

Em Mass Effect, trilogia de games produzido pela empresa canadense Bioware, o jogador se ve no controle de um comandante, chamado Shepard (que não tem sexo definido, dependendo da escolha do jogador), que ao descobrir a ameça dos Reapers (ceifadores), uma raça de maquinas, que a cada 50.000 anos "colhe" as civilizações da galáxia em um ciclo movido por razões desconhecidas, Shepard acaba se envolvendo em uma tentativa desesperada de evitar que o ciclo se complete novamente.

Um reaper




Durante o game, o jogador descobre as razões por trás do ciclo. Os Reapers acreditam que as civilizações orgânicas, tendem a se extinguir, devido a criação de "Inteligencias artificiais". As formas de vida sintética, extremamente mais capazes do que as orgânicas, levariam seus criadores a extinção. Parte desse pensamento tem raízes religiosas, já que é um retorno ao mito de Adão e Eva, ou de Prometeu. Mas, as influencias contemporâneas também moldam a criação de uma história, e a aparente crença de que a tecnologia pode ser prejudicial em Mass Effect, não escapa disso. Mas esse pensamento tem fundamento?

RECURSOS LIMITADOS

Não sabemos se existem civilizações lá fora, e qualquer análise tentando adivinhar seu comportamento, cai no reino dos pensamentos e comportamentos humanos, e invalida qualquer argumento, portanto, vamos nos focar apenas em nossa especie. Os Seres Humanos, tem ao longo de sua existência, vivido de diversas formas. Durante a maior parte de nossa História, vivemos de forma nômade, caçando e coletando alimentos. Cerca de 12 mil anos atrás, algumas comunidades sedentárias e agrárias surgiram, remodelando nosso modo de vida e acionando um bomba relógio.

O custo de todo o progresso
Devido ao crescimento populacional, proveniente do aumento de alimentos, mais terras eram necessárias para manter uma comunidade, que logo crescia, se tornando uma cidade e as vezes um império. Vemos o caso de Roma, que surgiu como um conjunto de vilas latinas, e se tornou um vasto império, devido a necessidade de terras para a agricultura e extrativismo. Para uma civilização avançar, outra precisa recuar, e o jogo das cadeiras das civilizações pode ser brutal.

Ao longo dos últimos três séculos, a tecnologia humana, alcançou níveis inimagináveis, mas o custo foi enorme. Centenas de florestas ao redor do mundo sumiram, ou foram reduzidas a pequenas zonas de proteção. Rios e mares foram poluídos. Especies foram extintas. E em nossa cobiça, estamos até mesmo poluindo o espaço.

Atualmente existe um crescente movimento contrário ao progresso predatório, mas o mesmo ainda está longe de desafiar os predadores. Ao contrário, nos últimos anos vimos um aumento no nível de poluição do meio-ambiente.

Em Mass Effect, as formas de vida orgânicas estão predispostas a se destruírem devido a criação de I.A´s, mas creio que a razão para tal história, seja mais profunda. O espirito de uma época, ecoa nas produções artísticas e nas narrativas e Mass Effect, é apenas mais uma História influenciada por esse espirito. Ao longo do game, vemos vários exemplos que evidenciam isto. As artimanhas politicas do embaixador Udina, para aumentar o poder dos seres humanos diante das outras raças avançadas. O grupo Cerberus, que possui uma visão maquiavélica, quanto ao avanço humano. Mass Effect é na minha opinião muitas vezes superior a Star Wars e Star Trek, por seus temas diversos, e a inteligencia de seu roteiro. Espero no futuro realizar outras análises dessa incrível serie, que prova que videogames são arte.  




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